O enfermeiro recostou-se, atônito, na porta de vidro que separava o quarto do isolamento da enfermaria. Fitava-me, como se procurasse a coragem interna para recitar um pequeno discurso gravado. Era tão jovem. E sua presença, ali parado a me olhar, tão calado causou-me desconforto. Sabe-se lá quais são suas pretensões? E se ele fosse um religioso fundamentalista? É perigoso lidar com desconhecidos. Ainda mais perigoso quando os desconhecidos em questão são tão silenciosos. Eu aprendi comigo mesma a temer o silêncio.
Eis que, como que de súbito, palavras escaparam de sua boca. E logo um questionário de cunho pessoal desmembrou-se através de sua voz. Perguntou-me qual era minha idade, o que eu tinha para ter ido pro isolamento do CTI, o que eu costumava fazer.. Respondi tão vagamente, incitei o silêncio novamente. Desejava espanta-lo. Era realmente forte o incômodo que sua presença me causara. Eu, que já tão invadida, tão desprotegida física e emocionalmente. Acredita que tentaram por fraudas em mim? Sim! Tentaram, também, me obrigar a fazer as necessidades numa comadre. Ora, ora... E eu lá consigo fazer xixi deitada? É um absurdo incumbir isso à pacientes que estejam num estado de lucidez e afastados de suas pílulas diárias, como eu. Mas que seja, recusei-me até o último instante e consegui, - orgulho-me por tal feito - com louvor, ser a única paciente daquele CTI a utilizar um banheiro de verdade, para as necessidades fisiológicas e banho. Tal feitio transformou tais momentos em algo especial, um acréscimo de vida ao meu cotidiano.
Entretanto, voltando ao enfermeiro atônito, após eu conseguir fazer o silêncio sepulcral reinar novamente, depois de uma dúzia de segundos passados, o enfermeiro vomitou uma frase: às vezes, coisas desse tipo acabam sendo boas.. A gente aprende a dar valor. Eu, sempre farta de qualquer tipo de ladainha de autoajuda, o respondi rigidamente. Isso é bom, eu disse. E só. Ele retirou-se e eu ri. Tola criança que sou. Ele tinha razão. Eu tenho espirrado valor, vomitado valor a torto e à direito. Mas as coisas, ah.. Elas não cospem nem um catarrinho de valor em mim.
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