O enfermeiro recostou-se, atônito, na porta de vidro que separava o quarto do isolamento da enfermaria. Fitava-me, como se procurasse a coragem interna para recitar um pequeno discurso gravado. Era tão jovem. E sua presença, ali parado a me olhar, tão calado causou-me desconforto. Sabe-se lá quais são suas pretensões? E se ele fosse um religioso fundamentalista? É perigoso lidar com desconhecidos. Ainda mais perigoso quando os desconhecidos em questão são tão silenciosos. Eu aprendi comigo mesma a temer o silêncio.
Eis que, como que de súbito, palavras escaparam de sua boca. E logo um questionário de cunho pessoal desmembrou-se através de sua voz. Perguntou-me qual era minha idade, o que eu tinha para ter ido pro isolamento do CTI, o que eu costumava fazer.. Respondi tão vagamente, incitei o silêncio novamente. Desejava espanta-lo. Era realmente forte o incômodo que sua presença me causara. Eu, que já tão invadida, tão desprotegida física e emocionalmente. Acredita que tentaram por fraudas em mim? Sim! Tentaram, também, me obrigar a fazer as necessidades numa comadre. Ora, ora... E eu lá consigo fazer xixi deitada? É um absurdo incumbir isso à pacientes que estejam num estado de lucidez e afastados de suas pílulas diárias, como eu. Mas que seja, recusei-me até o último instante e consegui, - orgulho-me por tal feito - com louvor, ser a única paciente daquele CTI a utilizar um banheiro de verdade, para as necessidades fisiológicas e banho. Tal feitio transformou tais momentos em algo especial, um acréscimo de vida ao meu cotidiano.
Entretanto, voltando ao enfermeiro atônito, após eu conseguir fazer o silêncio sepulcral reinar novamente, depois de uma dúzia de segundos passados, o enfermeiro vomitou uma frase: às vezes, coisas desse tipo acabam sendo boas.. A gente aprende a dar valor. Eu, sempre farta de qualquer tipo de ladainha de autoajuda, o respondi rigidamente. Isso é bom, eu disse. E só. Ele retirou-se e eu ri. Tola criança que sou. Ele tinha razão. Eu tenho espirrado valor, vomitado valor a torto e à direito. Mas as coisas, ah.. Elas não cospem nem um catarrinho de valor em mim.
21 de maio de 2013
Poema em linha reta.
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Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
- Álvaro de Campos [Fernando Pessoa]
Entre vômitos contidos; tal seria meu posicionamento com relação à vida. Sono. Apatia, talvez? Quiçá. E então, Camila, você não vai vomitar? Eu já não sei mais. Pílulas e pílulas: sufocando, abafando qualquer palavra, qualquer sentimento que fuja da linha tênue, desejável e inacessível que é a normalidade. Põe o dedo na garganta e vomita, oras! Mas não dá. Não sai. Está intalada. Todas as minhas momentâneas verdades e vontade de potência. Tudo preso. Põe, enfia a mão inteira na garganta pra ver se sai! Mas não dá. Nada sai... Nem suspiro de dor. Valor. Talvez isso saia. Amor sai. Sai pouco, bem tímido, acanhado. Mas não volta. Vou perdendo aquilo que guardei de bom. E olha que não volta. Grita! Rabisca qualquer coisa em qualquer pedaço de papel pra ver se te livras do ópio sentimentalista! Mas não dá. Não, não dá não.
3 de maio de 2013
Esqueça o mundo da Disney.
Algumas pessoas, nascidas num leito afetado pela visão romântica sobre a realidade, são simplesmente incapazes de distinguir a moralidade (ou melhor, amoralidade) da natureza. Citações como "sua descrença é inevidênte, pois veja só como Deus se faz presente através do amor e harmonia da natureza!"
Pergunto-me, pois: como pode haver amor e harmonia em um sistema baseado pura e simplesmente na lei da sobrevivência, seja lá quais forem os meios para conseguir mantê-la? (sabendo-se que a via principal é a violência) A natureza é violência.
Sim, é bela. E o fato de poder admira-la com olhos crus traz-me ainda maior fascínio.
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